Nebulosa


Viajamos anos-luz Universo adentro
Confirmamos as mortes das estrelas que vocês veem no céu
Visitamos cada corpo celeste que se fez visível
Guardamos cada substância coletada como um troféu

Mas sinto falta…

O lado em que a Ciência está é o nosso
Minha biologia não mais dita o que posso

Ainda sinto falta…

Finalmente contemplo minha última vista
Cores explodindo, iluminando o olhar que salta
Será o descanso eterno aquilo que me falta?
Talvez deus seja mesmo um astronauta…


 

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Ovos


Que emoções um poema carrega?
As trôpegas que ninguém rega?
Ou o arrepio que vem do nada?
Minha força de vontade tá cansada…

Não é como eu queria

As palavras precisam sair do papel
Dar adeus ao ninho
Bater suas asas
E virarem ações

Nem tudo é poesia


Ser / Estar


Curioso o poder dos espelhos
De desmascarar as nossas feições
De por dúvidas em nossos senões
Um velho a nos dar conselhos

Mas se a imagem que vemos é o passado
Como será o nosso presente?
Como será o nosso futuro?
Tão distante quanto uma estrela cadente

Faça um pedido

Você não é o seu reflexo
Você foi o seu reflexo


 

Asas


Não quero tomar estas decisões
Tão frugais, tão fatais
Imersas em tantas milhões
Versões da minha paz

Afinal, os fins justificam os meios
Ou os meios justificam os fins?

Uma ode aos nossos inícios sem finais


 

Esconde-esconde


Maria adorava desenhar para João
João sempre via as imagens
Mas nunca enxergava as margens
Queria ela somente a sua atenção?

João adorava cantar para Maria
Maria sempre ouvia os sons
Mas nunca escutava os tons
Tão logo pudesse ela dali sairia?

E cada amigo vindo sempre com uma teoria
De que é magia, que eles vão se casar um dia
João e Maria… mas neles ainda se vê o rubor
No rosto de quem ainda não sabe o que é amor


Pêndulo


Você quer atenção nos seus dias ruins
Quer companhia nos seus dias ruins
Quer meu beijo nos seus dias ruins
Quer meu sexo nos seus dias ruins

Eu sei…

E some nos seus dias bons
Enquanto eu formo minha casca vazia
Esse é um dos meus dons
Claro que você nunca deu a mínima

Eu sei…

Isso tudo precisa ser tão ruim assim?

Você sabe ligar pra mim…


Âncora


Chegamos na praia, olhamos o horizonte
Realmente é um lindo oceano
Mergulhei em sua água escura
Pisei na sua areia dura
Encontrei muita vida
Nesse seu solo marciano

Aventurei-me além do que podia
Senti suas parcas ondas
Meu avô já me dizia:
“Muito cuidado com a profundidade
É nela que você conhece as mais lindas mentes
E as mais horrendas criaturas”

Ele também me ensinou que a água é insípida
Eu sei identificar uma amizade líquida
Eu sei identificar um amor líquido
Mesmo péssimo em química

Mas ótimo em poesia


 

Infinitude


Abra a porta
Enfim, ela chegou
Mas a última chance sempre chega
Para quem se basta com meias palavras

O infinito existe
Entre dois segundos
Entre dois números
Entre dois mundos

O infinito existe
Entre nossos desejos
Entre nossos números
Entre nossos beijos

Eu nunca fui de meias palavras


 

Passageiro


Foi um longo trecho
Vagões tão lotados que o sangue ferve
Isto é um desfecho?
Pra alguém tão acostumado com o breve

Aparelhos, trilhos, cascalhos
Mesma paisagem, mesma rota
Iguais a mim existe uma frota
Com os mesmos atos falhos

Muito obrigado pela viagem
Mas na próxima estação você tem que ir
Atenção no desembarque e siga bem
O trem tem que partir


 

Bicolor


Maior que a dor
E a sua mera definição de torpor
Maior que o amor
E a sua fera domadora de calor
Mas seja onde for
O espelho será o reflexo do meu terror

Então não deve ser tão difícil
Admitir que sou menor que tudo isso